O papel do lucro

Existem alguns motivos que nos levaram a tomar a decisão de adotar mecanismos de mercado para trazer benefícios sociais. O maior deles, na minha visão, é a possibilidade de gerar uma escala que não poderia ser alcançada em um modelo filantrópico ou sem fins lucrativos. O lucro, neste caso, serve ao propósito de alavancar o negócio para que ele possa atender e beneficiar a cada vez mais pessoas. Ele serve como uma ferramenta para realizar a visão, a missão e os propósitos dos negócios sociais.

E o lucro, como todo negócio tradicional, pode ter duas destinações principais, que de maneira alguma são excludentes:

- Pode ser reinvestido no próprio negócio, fortalecendo sua estrutura física, trazendo profissionais qualificados, garantindo a saúde do capital de giro, entre outras utilidades que vão variar dependendo da indústria e da fase de maturidade da empresa; e

- Pode ser retornado ao investidor, remunerando de forma justa o seu risco.

O tema de retorno ao investidor ainda causa discussões um pouco acaloradas, principalmente no setor social, especialmente depois que o Muhammad Yunus publicou seu conceito de empresas sociais, que não devem distribuir dividendos. Na minha visão, os dividendos devem ser distribuídos sim! Nada mais justo do que retornar capital para os investidores que colocaram dinheiro esperando ver o sucesso destas empresas. Isto serve não apenas para mostrar que negócios sociais são viáveis de um ponto de vista macroeconômico, como também serve para atrair mais investidores para este setor. Sem retorno, o setor continuaria a depender de filantropos, o que reduz drasticamente o volume de capital à disposição.

Tanto em uma perspectiva puramente da empresa quanto do setor como um todo, os mecanismos de mercado são necessários para trazer escala para o setor dos negócios sociais. Negar o lucro (ou a distribuição de dividendos) é manter o status quo e a divisão existente entre os que acreditam que o lucro é a solução e os que acreditam que o benefício social desapegado é a solução. Integrar o que estas duas facetas têm de melhor e aplicar no mundo, é admitir que a solução talvez esteja no meio do caminho. E este é o caminho que escolhemos.

Pólo de Negócios Sociais em São Paulo

Alguns atores já estão começando a se reunir em torno de uma visão de criar um pólo de negócios sociais em São Paulo. A Vox Capital (empresa onde trabalho) também faz parte deste grupo. Nesta visão, São Paulo será uma espécie de Vale do Silício dos negócios sociais. Certamente, esta é uma visão ousada e desafiadora. Mas por que não?

O Brasil é um país cheio de possibilidades e de oportunidades para este setor. Os nossos problemas sociais são enormes, nossa desigualdade de renda é uma das maiores do mundo e ainda temos problemas gravíssimos com burocracia, falta de infraestrutura e corrupção. Ou seja, existem oportunidades enormes para melhorias. Estas deficiências deixam abertas muitas possibilidades para a criação de negócios inovadores e altamente rentáveis.

E São Paulo é um local privilegiado neste cenário. É uma cidade que, ao mesmo tempo em que sofre diretamente com esses problemas e deficiências, também possui um enorme potencial financeiro e humano. São Paulo concentra grande parte dos investidores brasileiros e atrai os profissionais de todas as áreas com as melhores formações do país. Sem contar, é claro, o fato de ser o maior mercado consumidor do país. Não existem razões racionais para esta visão não acontecer.

Entretanto, neste caminho, ainda estamos muito atrás de outros países em desenvolvimento, como a Índia, por exemplo, onde este setor já está muito desenvolvido. Precisamos trabalhar bastante para assumirmos a liderança neste novo campo. Isso somente será possível com um número muito grande de atores engajados e trabalhando na mesma direção. É preciso muito trabalho e, principalmente, muita vontade para fazer a visão acontecer e o pólo de negócios sociais em São Paulo se tornar realidade. Mas não tenho dúvidas de que é uma visão que pode se tornar realidade.

Qual a sua opinião sobre essa visão? Ela é possível? Será que, com a ajuda de uma boa parcela das pessoas de altíssimo potencial que temos em São Paulo e região, conseguiremos criar esse pólo de excelência mundial? Você quer também ser uma das pessoas que vão transformar essa visão em realidade?

Negócios Sociais

A Vox Capital, fundo de venture capital onde trabalho, tem como foco investir em negócios sociais. Mas o quê são negócios sociais?

Por aqui, já vimos todos os tipos de definições para negócios sociais. Por isso decidimos contribuir para a construção do termo com a nossa própria definição. Para nós, negócios sociais são empresas (não ONGs, não OSCIPs) cujos produtos e serviços ajudam a reduzir a desigualdade social ou a pobreza. Nesta definição, também diferenciamos negócios inclusivos de negócios sociais. Em nossa visão, negócios inclusivos são aqueles que inserem pessoas de baixa renda em sua cadeia de valor, seja na fase produtiva e/ou na fase de distribuição do produto ou serviço. Os negócios inclusivos tem como principal impacto positivo a geração de renda. Mas os produtos ou serviços que são vendidos não necessariamente ajudam a melhorar a qualidade de vida de pessoas de baixa renda. Estes seriam os negócios sociais. Os exemplos ainda são poucos no mundo. Podemos citar como exemplos o grupo Grameen, do Muhammad Yunus, e seus Grameen Bank, Grameen Phone e Grameen Danone, entre outros, além do Aravind (www.aravind.org), na Índia. Fundos interessados nesta área também já começam a aparecer ao redor do mundo. Vale citar o americano Acumen Fund (http://www.acumenfund.org), o mexicano Ignia Fund (http://www.ignia.com.mx) e o indiano Aavishkaar (http://www.aavishkaar.org) . Interessante é notar que muitos destes modelos ainda se organizam como organizações sem fins lucrativos, o que fica claro desde os seus endereços eletrônicos (.org). Não é a visão que temos. Para nós, negócios sociais devem ser empresas e devem pagar dividendos aos seus investidores. Talvez, por este ponto de vista, nosso modelo esteja mais próximo ao do Ignia Fund.

Este é um setor ainda pequeno, mas que vem crescendo rapidamente nos últimos meses (isso mesmo: meses, não anos!). As definições estão começando a surgir e podem mudar muito até amadurecerem. Por isso, quanto mais pessoas interessadas na discussão puderem participar, melhor! O setor precisa de gente boa e interessada no assunto para contribuir em sua criação e expansão.

Para você, o que é um negócio social? Como pode ser definido? E, ainda além, você acha que o termo “negócio social” é a melhor definição para esse novo setor?

O desafio

Vivemos em um mundo dividido. Muitas vezes as coisas são vistas em termos extremos: preto ou branco, quente ou frio, isto ou aquilo, criando paradoxos que aparentemente não podem ser conciliados. Nos negócios isso não é diferente. O maior dos paradoxos no mundo dos negócios, hoje em dia, é a oposição entre lucro e benefício social. Na visão da maioria das pessoas, eles estão em extremos opostos de um mesmo eixo, o que faz com que pareça necessário se fazer uma decisão entre um ou outro. Quanto mais benefício social, menos lucro, e vice-versa. E esta posição não é adotada apenas por aqueles que afirmam, com base nas palavras de Milton Friedman, que “the business of business is doing business”*. Grande parte das pessoas que trabalham no setor social também acredita nesta divisão e algumas até chegam a ver o lucro como algo ruim, como algo a ser negado.

O irônico é que, embora ambos os grupos estejam em lados opostos, eles se encontram muito unidos em suas visões de mundo. Ambos não acreditam que as coisas podem ser feitas de uma maneira diferente. Ambos acreditam na “filosofia” do ou-isso-ou-aquilo. Ambos negam um ao outro. Como consequência, vivemos um mundo cindido, com graves problemas sociais e poucas propostas reais e factíveis de solução.

Mas será que é impossível gerar valor social positivo e incluir, ao invés de excluir, através do lucro? Mas será que o paradigma apresentado é real? Acredito que não. Acredito que um novo modelo seja possível. E não apenas isso. Acredito que um novo modelo é necessário para trazer alternativas à situação atual em que se encontra o mundo. É nisso que meus sócios, eu e mais alguns grupos já estamos trabalhando. Esse é o nosso desafio. Mostrar que esse paradigma não só não faz mais sentido hoje em dia, como é extremamente maléfico ao mundo e à nossa vida.

Mas não quero ser retórico. A busca por estes novos modelos deve ser através de atividades práticas e pragmáticas. Pessoas que questionam o modelo atual precisam tomar coragem e começar a trabalhar em busca de alternativas. Acabou a hora de reclamar do mundo e começou a hora de propor soluções ao mundo. Esse é o desafio.

* acho importante ressaltar que concordo em muitos aspectos com a frase de Milton Friedman: também acho que um negócio não deve se envolver com atividades que estão fora de seu “core business”. Muitas empresas se envolvem em atividades de responsabilidade social que não tem relação direta aparente com seu negócio apenas para, muitas vezes, permitir que seus executivos e acionistas durmam mais tranquilos. Sob o meu ponto de vista, caso o interesse em causar um impacto positivo seja real, as empresas deveriam trazer esse impacto positivo para dentro de seu modelo de negócio. Caso contrário, essa empresa estará alocando recursos de maneira sub-ótima, gastando esforços e dinheiro em algo que não vai gerar valor à empresa e, além disso, gerando um impacto social menor do que o desejado e do que o necessário, pois essa atividade não terá acesso aos grandes músculos que o negócio central da empresa tem à disposição.


 

Dezembro 2009
S T Q Q S S D
« Jun    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos